Professor catedrático e escritor
1941 – 2002
José Martins Garcia nasceu na Criação Velha, a 17 de Fevereiro de 1941, tendo feito os seus estudos iniciais no Pico e parte dos liceais na Horta. Em Lisboa licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras. Teve uma breve passagem pelo Liceu da Horta, antes da mobilização para a guerra na Guiné-Bissau (1966 -1968). Entre 1969 e 1971 foi leitor de Português em Paris. Foi professor na Faculdade de Letras de Lisboa, de 1971 a 1977, como assistente. Partiu para a América, onde leccionou na Brown University, entre 1979 e 1984, ingressando, de seguida na Universidade dos Açores, onde permaneceu até à sua morte, em 4 de Novembro de 2002. Na Universidade dos Açores introduziu a cadeira de Literatura e Cultura Açorianas e doutorou-se com uma tese sobre Fernando Pessoa e atingiu a cátedra. Ocupou o cargo de Vice-reitor e dirigiu a revista Arquipélago, do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas.
A sua obra apresenta uma diversidade de intervenções, que vão desde o ensaísmo, à poesia, passando pelo romance, pelo conto e pela crítica jornalística.
No jornalismo português destacou-se, antes e depois do 25 de Abril, no República, Jornal Novo, A Luta, A Capital, o Diário de Notícias, O Diabo e a Vida Mundial.
No ensaio e crítica: Linguagem e Criação (1973), Cultura , Política e Informação (1976), Vitorino Nemésio .A Obra e o Homem (1978), David Mourão-Ferreira. A Obra e o Homem (1980), Temas Nemesianos (1981), Fernando Pessoa – “Coração Despedaçado”(1985), Para uma Literatura Açoriana(1987), David Mourão-Ferreira – Narrador(1987), Vitorino Nemésio – à luz do Verbo(1988), Exercício da Crítica(1995).
No teatro: Tragédia Exacta (1975) e Domiciano(1987).
No conto: Katafaraum é uma Nação (1974), Alecrim, Alecrim aos Molhos (1974) Querubins e Revolucionários (1977), Receitas para Fritar a Humanidade (1978), Morrer Devagar (1979), Contos Infernais(1987), Katafaraum Ressurecto (1992).
No romance: Lugar de Massacre (1ªedição: 1975), A Fome (1ªedição: 1978), O Medo (1982), A Imitação da Morte (1982), Contrabando Original (1987) e Memória da Terra (1990).
Na poesia: Feldegato Cantabile (1973), Invocação a um Poeta e Outros Poemas (1984), Temporal (1986), No Crescer dos Dias (1996).
David Mourão-Ferreira, um dos maiores críticos literários do século vinte português, disse sobre José Martins Garcia: “Se não vivêssemos, vicentinamente, num País em que a “barca do purgatório” anda sempre mais carregada que as outras duas /…/ o nome de José Martins Garcia deveria ser hoje unanimemente saudado como o do escritor mais completo e mais complexo que no último decénio entre nós se revelou; /…/ com igual mestria tanto abrange os registos da mitificação narrativa como os da exegese crítica, tanto os da desmistificação satírica como os da transfiguração telúrica, e que sem dúvida não encontra paralelo, pela convergência e concentração de todos estes vectores, na produção de qualquer outro seu coetâneo.” (1987)
Dizer que foi o maior escritor nascido no Pico é um epíteto verdadeiro, mas falta ainda muito para que os picarotos o entendam plenamente, como tal. A versatilidade da sua obra, a riqueza de vivências narradas e os sentimentos que provoca, temperados e aguçados por uma sempre presente e acutilante ironia, elevam José Martins Garcia a um lugar ímpar na Literatura Portuguesa.
Faz bem à nossa alma picarota ler JMG:
“Onde estás, tu, que viste dispersar
Dos teus o sangue por estranhas terras,
E escutas os gemidos dum lugar
Na memória do bago onde te encerras?
…
Na ilha do regresso os rostos são
Espaços onde cresce o incenso e a faia;
Ali foi a latada, ali o balcão,
Ali foi o regresso. A cor desmaia.
…
Gato de liberdade inteira e breve
Entre um telhado ilhado e o mar e a chuva…
O mar é grande, mas o olhar o encerra;
E a terra dura o tempo duma nuvem.”
In No Crescer dos Dias
Guindaste, 21 de Fevereiro de 2007-02-21
MTGC
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