A Concepção do Currículo no Jardim-de-infância

 

Educação Pré-Escolar tem características gerais que a distinguem de outros níveis de ensino. Para estes níveis etários não existem conteúdos programáticos, nem currículo, mas sim, a construção de um currículo próprio, de acordo com as Orientações Curriculares, tendo em conta as Áreas de Conteúdo, face à situação específica de cada turma.

Deste modo, com a existência das Orientações Curriculares publicadas pelo Departamento de Educação Básica do Ministério da Educação em Setembro de 1997, pelo Despacho nº 5220/97 do Diário da República nº 178, II Série, o currículo a desenvolver, abarcará quatro fundamentos aí enunciados: “o desenvolvimento e aprendizagem como vertentes indissociáveis; o reconhecimento da criança como sujeito do processo educativo; a construção articulada do saber e a exigência de dar resposta a todas as crianças”.

Tendo como suporte estes fundamentos, deverá criar-se uma organização do ambiente educativo que, segundo as orientações curriculares (1997: 15-31), “constitui o suporte do trabalho curricular” do jardim-de-infância. Assim, a Educação Pré-Escolar ganhará o estatuto de uma educação de qualidade, propiciadora da igualdade, devendo garantir as condições para que a criança aprenda a aprender, com vista a “contribuir para a igualdade de oportunidades no acesso à escola e para o sucesso das aprendizagens”. Deste modo, compreende-se, portanto, que o cenário não se torna muito estimulante para crianças provenientes de ambientes sociais desfavorecidos, se estas não tiverem acesso à educação pré-escolar. Aqui ressalta o objectivo geral da Lei-Quadro da Educação Pré-Escolar, uma vez que ela é “a primeira etapa da educação básica no processo de educação ao longo da vida”.

De acordo com o Dec. Lei nº 241/01 de 30 de Agosto, no seu anexo nº 1, ponto II, está definido o modo como cada educador de infância “concebe e desenvolve o respectivo currículo, através de planificação, organização e avaliação do ambiente educativo”. Assim, ele “organiza o espaço e os materiais, concebendo-os como recursos para o desenvolvimento curricular, de modo a proporcionar às crianças experiências educativas diversificadas; disponibiliza e utiliza materiais estimulantes;”.

As Áreas de Conteúdo, na educação pré-escolar, favorecem uma perspectiva globalizante no que se refere aos conteúdos transversais conducentes às diferentes aprendizagens. Designam-se, pois, por Formação Pessoal e Social, Expressão e Comunicação e Conhecimento do Meio.

        A área de Formação Pessoal e Social é uma área transversal e integradora, assenta no conhecimento de si, do outro e na relação com os outros. Por assim dizer, o desenvolvimento pessoal e social baseia-se na criação de um ambiente relacional em que a criança é escutada e valorizada. Privilegia-se, deste modo, a capacidade de auto estima, auto confiança e independência, no sentido do saber ser e saber fazer. Estas atitudes, conduzem à construção da sua autonomia e socialização, consciência dos diferentes valores sociais, aquisição de um espírito crítico, através da abordagem de temas transversais, induzem assim à educação para a cidadania.

A área de Expressão e Comunicaçãoengloba as aprendizagens relacionadas com o desenvolvimento psicomotor e simbólico que determinam a compreensão e o progressivo domínio de diferentes formas de comunicação”. Orientação Curriculares (1997:56) Esta área divide-se em três domínios: domínio das expressões – motora, dramática, plástica e musical; domínio da linguagem oral e abordagem à escrita e o domínio da matemática. Todos esses domínios estão relacionados entre si e apontam para a aquisição e aprendizagem de códigos, que são meios de relação, de recolha de informação e sensibilização estética e, que permitem à criança representar o seu mundo interior e o que a rodeia. Por se tratar de formas de comunicação, todas elas recorrem à sensibilização estética e eventual domínio de materiais e técnicas.

No que se refere à expressão motora, deverão ser proporcionados materiais e formas de sentir e utilizar o corpo, como também diferentes formas de manipulação de objectos, que conduzam ao progressivo desenvolvimento da motricidade global e fina.
 
      No âmbito da expressão dramática, surge o jogo simbólico e dramático, como forma de descoberta de si e do outro, afirmação de si próprio e a interacção com outras crianças em pleno contexto das actividades supra indicadas.

No seguimento do domínio das expressões surge a expressão plástica como meio de representação e comunicação, intimamente relacionada com a expressão motora que implica o controlo da motricidade fina, através do manuseamento de materiais, instrumentos e técnicas que vão desde o desenho, pintura, modelagem, recorte e colagem, entre outras.

Ainda no domínio das expressões, salienta-se a expressão musical que permite desenvolver na criança aspectos de saber escutar, cantar, dançar, tocar, oferecendo-lhes a possibilidade de produzir e explorar ritmos e sons.

O domínio da linguagem oral e abordagem à escrita assenta na forma de expressão e comunicação, com formas variadas de representação, através de um clima de comunicação criado pelo educador, em que a criança irá dominando a linguagem e alargando o seu vocabulário. É necessário, pois, proporcionar momentos de contacto livre e directo com diferentes tipos de códigos simbólicos, explorando, com carácter lúdico, imagens, gravuras e texto, para que a criança sinta interesse e prazer pela leitura e escrita e, consequente emergência da escrita, comunicação verbal e não verbal.

Para finalizar a área de expressão e comunicação, o domínio da matemática deverá fazer parte integrante do quotidiano do jardim-de-infância, onde “o educador proporcione experiências diversificadas e apoie a reflexão das crianças, colocando questões que lhe permitam ir construindo noções matemáticas”. Orientações Curriculares (1997: 74) A construção das noções matemáticas fundamenta-se na vivência do tempo e do espaço em contexto de actividades espontâneas e lúdicas, através da exploração e manipulação de materiais, relativamente ao espaço, e às suas características físicas. Estas vivências e acções permitem, à criança, a realização de princípios lógicos desde o classificar, seriar e ordenar.

A área de Estudo e Conhecimento do Meio está relacionada com a introdução às ciências, conhecimento do meio próximo e outros meios e culturas. Trata-se de uma área que desperta a curiosidade natural da criança e desejo de saber, englobando saberes sociais, método científico, observação e registo, construção de conceitos, educação para a saúde e ambiente. Estes temas devem ser criteriosamente escolhidos pelo educador, face à sua pertinência, não esquecendo os interesses do grupo.

No que se refere à organização do espaço de actividades do jardim-de-infância, este deverá proporcionar um conjunto de experiências enriquecedoras e motivadoras para um crescimento rico e harmonioso, equilibrado e global de cada criança, individualmente ou em grupo, visando a sua inserção na sociedade, numa perspectiva de educação para a cidadania. Percebe-se, pois, que estamos face a outro objectivo da Lei-Quadro da Educação Pré-Escolar: desenvolver a expressão e a comunicação através de linguagens múltiplas como meios de relação de informação, de sensibilização estética e de compreensão do mundo. Este objectivo pressupõe atribuir especial importância à abordagem das novas tecnologias de informação e comunicação, como forma de linguagem, referenciada nas Orientações Curriculares (1977: 72). Realça que “a utilização de meios informáticos, a partir da educação pré-escolar, pode ser desencadeadora de variadas situações de aprendizagem, permitindo a sensibilização a um outro código, o código informático, cada vez mais necessário. Ele pode ser utilizado em expressão plástica e expressão musical, na abordagem ao código escrito e na matemática”.

O jardim-de-infância tem a gestão integral da organização pedagógica, através do currículo estruturado nas orientações curriculares, que possibilitam assim, aos educadores, a liberdade de adoptar uma pedagogia estruturada. Assiste-se, deste modo, à criação de um método próprio, visando o sucesso nas aprendizagens das crianças, “não menosprezando o carácter lúdico de que se revestem muitas das aprendizagens (…)”.Orientações Curriculares (1997: 18)

Neste âmbito, o Decreto Regulamentar Regional, nº 17/2001/A, de 29 de Novembro, artº 22, ponto 3, faz referência às orientações curriculares a serem seguidas na componente educativa, em conformidade com o “ projecto educativo e com o plano anual de actividades da instituição onde a valência se insere”.

Todavia, esta aprovação consubstanciou-se com a Portaria nº 1/2002 de 3 de Janeiro, referindo que “ são aprovadas as orientações curriculares e as aquisições básicas que devem ser seguidas na componente educativa da educação pré-escolar (…)"                         

                                                                                    A Coordenadora de Departamento

                                                         

 

BIBLIOGRAFIA 
 

Decreto Lei nº 241/2001. D.R. I SÉRIE – A. 201 (30/08/01) – Define o perfil geral de desempenho profissional dos educadores de infância.

Decreto Regulamentar Regional, nº 17/2001/A, de 29 de Novembro – Aprova o estatuto dos Estabelecimentos de Educação Pré-Escolar da Região Autónoma dos Açores.

Portaria nº1/2002 de 3 de Janeiro – Aprova as orientações Curriculares da educação pré-escolar

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO - Orientações Curriculares: para a educação Pré Escolar – Lisboa: 1997. (Colecção Educação Pré Escolar;1).